Decisão na incerteza em Saúde

A incerteza é o “normal” e a espera também é uma decisão
Na liderança em saúde, raramente existe uma informação completa. O erro não está em decidir com dados imperfeitos, mas em fingir que a decisão só é legítima quando “tudo está medido”.
O ponto central é temporal: a utilidade da informação adicional diminui com o tempo, enquanto o custo da inação cresce (e muitas vezes acelera). Por isso, a pergunta útil não é “temos dados suficientes?”, mas sim: “Qual é o custo real de esperar mais?”.
Nem toda a incerteza é igual, e confundi-la leva frequentemente a más decisões. Há situações em que o risco é conhecido ou pelo menos estimável: sabemos quais são os cenários possíveis e conseguimos atribuir-lhes probabilidades razoáveis. É o caso de muitos atos clínicos, de previsões de procura baseadas em séries históricas ou de decisões financeiras recorrentes. Aqui, a decisão é imperfeita, mas é tecnicamente informada. Noutras situações, o problema não é o risco, mas a incerteza propriamente dita: os cenários são conhecidos, mas as probabilidades não o são. Sabemos o que pode acontecer, mas não sabemos quão provável é cada resultado. Este é o território típico de crises organizacionais, mudanças estruturais, reformas de sistemas ou introdução de novos modelos assistenciais.
Existe ainda um nível mais exigente: a ambiguidade. Aqui, nem os cenários estão totalmente definidos. Não sabemos exatamente o que pode acontecer, apenas que a organização pode reagir de formas não lineares ou inesperadas. Em saúde, isto ocorre quando múltiplas variáveis interagem, os comportamentos mudam em resposta às decisões e pequenas alterações podem gerar efeitos desproporcionados.
Esperar por certezas num contexto de ambiguidade não é prudência, mas sim uma ilusão. Nestes contextos, decidir não é escolher a opção “correta”, mas escolher uma opção robusta, capaz de resistir a vários futuros plausíveis.
No SNS, a não-decisão produz custos cumulativos que nem sempre aparecem nos dashboards:
- Clínicos (indiretos): atrasos nos diagnósticos, doença mais avançada frequente, maior complexidade futura.
- Organizacionais: fadiga crónica, “normalização do desvio”, circuitos informais que corroem a governação.
- Reputacionais: perda de confiança de profissionais e da comunidade.
- Estratégicos: perda de opções; quando se decide, já só restam as alternativas piores e mais caras.
É importante uma distinção essencial:
- Prudência informada: avalia riscos e decide apesar da incerteza. Por outras palavras, implica agir com base no melhor conjunto ponderado de informação disponível.
- Prudência defensiva: usa complexidade e “mais pareceres” como um mecanismo psico-organizacional para adiar responsabilidade.
Decidir com probabilidades (como na clínica), mas aplicado ao organizacional
Tal como na Medicina se raciocina com risco pré-teste e impacto, em liderança organizacional deve-se raciocinar por cenários e distribuições, não por certezas.
Uma decisão robusta compara sempre:
- Probabilidade do cenário
- Impacto se ocorrer
- Custo de errar em cada direção (assimetria)
- Reversibilidade (capacidade real de corrigir)
Isto é particularmente importante porque, em saúde, errar por defeito pode ser clinicamente/eticamente inaceitável, enquanto errar por excesso tende a ser sobretudo custo/ineficiência (muitas vezes reversível).
Dois tipos de probabilidade (não confundir):
- Clínica: desfecho em doentes/grupos.
- Organizacional: falha sistémica, saturação, comportamento emergente, erosão de capacidade.
Um viés muito frequente em lideranças médicas é privilegiar o risco agudo visível e subestimar risco cumulativo difuso (ex.: decisões que protegem o “agora” mas criam dano diferido e previsível).
Regra simples para bloquear “mais dados decorativos”:
“Se este novo dado confirmar o pior cenário, a decisão muda? E se confirmar o melhor, muda?”
Se a resposta for “não” em ambos, esse dado não deve atrasar a decisão.
Informação decisional vs informação descritiva (o antídoto para a paralisia por análise)
A maioria das pessoas que trabalham e gerem em saúde está saturada de informação. O problema raramente é a falta de dados, mas a falta de análise e avaliação da hierarquia e qualificação dessa informação:
- Informação decisional: se fosse diferente, mudava a escolha.
- Informação descritiva: melhora compreensão/auditoria, mas não muda a decisão.
A maturidade decisória é definir “informação suficientemente boa”, ajustada ao risco e à reversibilidade.
Nem toda a informação adicional melhora a decisão. Um critério simples ajuda a separar prudência de adiamento disfarçado:
Se este novo dado confirmar o cenário mais favorável, a decisão muda?
E se confirmar o cenário mais desfavorável?
Se a resposta for “não” em ambos os casos, a informação pode ser interessante, mas não é decisional. Continuar a procurá-la apenas adia a ação e aumenta o custo da inação. Na saúde, este fenómeno é frequente: relatórios mais detalhados, indicadores mais finos, novas projeções, que refinam a descrição do problema, mas não alteram o que precisa de ser feito. Quando a decisão já é clara em termos de impacto, segurança e equidade, a informação adicional raramente justifica o atraso.
Hierarquia operacional útil no terreno:
- Segurança clínica (riscos imediatos, falhas de cadeia, eventos evitáveis)
- Capacidade real instalada (equipa efetiva, tempos de ciclo, pontos de estrangulamento)
- Equidade e acesso (quem fica de fora, atrasos extremos, assimetrias)
- Detalhe útil mas não bloqueador (granularidade sem impacto de ação)
E um princípio de disciplina: só entra na mesa decisória um indicador se estiver ligado a uma ação possível.
Sistemas complexos: não linearidade e irreversibilidade
Hospitais ou outros serviços de saúde são sistemas complexos adaptativos: têm agentes interdependentes, efeitos diferidos, respostas mediadas por incentivos e uma cultura própria. Logo:
- Pequenas mudanças podem ter efeitos grandes.
- Reformas grandes podem ter impacto marginal.
- “Resolver aqui” pode apenas deslocar a pressão para outro ponto.
Irreversibilidades típicas no SNS:
- Perda de capital humano (saídas, equipas desfeitas, erosão formativa)
- Erosão de confiança (entre níveis de gestão e equipas; com a comunidade)
- Aprisionamento tecnológico/contratual (dependência de fornecedor, custos de saída)
- Normalização do desvio (o subótimo vira padrão)
A liderança madura não tenta “controlar tudo” com mais regras, mas cultiva e nutre uma arquitetura organização saudável para boas decisões emergirem: através de um propósito ou objetivo claro, regras simples, incentivos alinhados com o propósito e autonomia com limites.
A primazia das decisões reversíveis: agir cedo, corrigir cedo
Em instabilidade, a qualidade da decisão mede-se muito pela capacidade de ajuste. A reversibilidade não é sinónimo de hesitação: é construir e implementear as decisões que admitem correção sem causar dano relevante ou permanente.
Como tornar a liderança reversível na prática (dia a dia):
- Fracionar decisões em etapas (em vez de “tudo ou nada”).
- Pilotos/testes e implementação faseada.
- Critérios de saída ex ante (quando parar/ajustar/recuar).
- Horizontes curtos de reavaliação (ciclos rápidos de feedback).
- Redundâncias críticas (resiliência > eficiência extrema).
- Pressupostos escritos (para permitir revisão racional, não emocional).
Uma nota importante: a decisão clínica é muitas vezes reversível em dias/semanas. A decisão organizacional é frequentemente irreversível a curto prazo: a reversibilidade tem de ser programada, não presumida.
Tornar explícitos os riscos aceites: governar em vez de mascarar
Todo o processo decisório incorpora sempre algum tipo de risco. Se não for assumido, torna-se um risco opaco, mais perigoso.
É importante distinguir:
- Risco técnico: probabilidade de falha de processos/sistemas.
- Risco moral: quem paga o custo do erro; quem fica exposto; quem beneficia.
No SNS, isto é central: as decisões podem ser tecnicamente defensáveis, mas moralmente sensíveis (distribuição desigual de carga e risco entre doentes, equipas, territórios).
Boa prática de comunicação do risco (operacional, não retórica):
- “Probabilidade baixa, impacto elevado.”
- “Este é o risco dominante; os restantes são secundários.”
- “Aceitamos este risco por X semanas, não indefinidamente.”
- “Se o indicador Y ultrapassar Z, revemos a estratégia.”
É também útil a capacidade de dizer uma frase que reflete uma liderança madura (se for bem usada): “não sabemos”, seguida de um plano de vigilância e critérios de correção. Isto aumenta a confiança, porque reduz a surpresa e legitima os ajustes necessários.
Também aqui há um ponto cultural: a responsabilização não é culpabilização. Sem isso, o risco é escondido e a organização fica cega.
Decidir sob incerteza exige comunicação, não apenas análise
Uma decisão tomada sob incerteza só é eficaz se for compreendida. Explicar que não existe certeza absoluta, quais são os cenários considerados, que riscos foram aceites e quais foram mitigados é essencial para gerar alinhamento de toda a equipa ou elementos de uma organização. O silêncio hierárquico ou a comunicação excessivamente abstrata criam desconfiança e alimentam a perceção de arbitrariedade.
Liderar sob incerteza não é prometer a ausência de erro. Consiste em assumir explicitamente que a decisão foi tomada com a melhor informação disponível, no tempo adequado, e que será ajustada se o contexto mudar. A incapacidade de comunicar a incerteza transforma boas decisões técnicas em más decisões organizacionais.
Conclusão
Liderar em saúde não é procurar certeza mas assumir a responsabilidade sob a incerteza, decidindo em tempo útil, com foco no essencial, com reversibilidade programada e com risco explicitado (incluindo o risco moral). A competência não está em “acertar sempre”; está em errar pouco, errar cedo, corrigir cedo e manter o risco governável.
ERROS A EVITAR
- Confundir “mais dados” com “melhor decisão”.
- Avaliar decisões apenas pelo desfecho final (viés retrospetivo).
- Reagir ao ruído e gerar instabilidade organizacional.
- Tratar decisões organizacionais como se fossem ajustes terapêuticos (reversíveis por defeito).
- Linguagem vaga de segurança (“controlado”, “sem impacto”) que desarma vigilância.

Pandemia COVID-19: suspensão maciça de atividade programada e “custo invisível” diferido
O que aconteceu: durante 2020–2021 devido à pandemia COVID houve uma redução muito relevante de cirurgias programadas e alterações profundas do acesso a consultas; o Tribunal de Contas descreve uma queda de dezenas de milhares de cirurgias programadas e aumentos claros dos tempos de espera para consultas e cirurgias face a 2019.
Erro típico de decisão sob incerteza:
- Maximização do risco agudo visível (COVID) com subavaliação do risco cumulativo (progressão de doença, atrasos diagnósticos, agravamento da complexidade clínica futura).
- Inação travestida de prudência: “esperar por mais informação” (sobre ondas/variantes) quando o problema dominante já era operacional (capacidade, circuitos, execução).
- Decisões com aparência “segura” no imediato, mas com custos diferidos e assimétricos.
O que fazer diferente (se voltasse atrás):
- Instituir, desde cedo, um “núcleo de serviços essenciais não-COVID” com proteção operacional, com gatilhos explícitos para reduzir/expandir.
- Separação rígida de circuitos (tempo, espaço, equipa) para evitar a “contaminação operacional” e permitir a continuidade programada mínima.
- Decidir por cenários (otimista/central/pessimista) e não por números pontuais e atuais.
Soluções para o futuro (reutilizáveis em crises sazonais/epidémicas):
- Plano de Continuidade Assistencial formal: percentagem mínima de atividade programada por linha (oncologia, cardiovascular respiratória, etc.), com regras.
- Decisões reversíveis e faseadas (reduz 20%, revê em 7–14 dias; reduz 40% se gatilho X; reabre progressivamente se gatilho Y).
- Indicadores de alarme que não sejam só COVID: tempos para 1.ª consulta prioritária, backlog por patologia, taxa de no-show por medo/adiamento, etc.
Encerramentos/limitações de urgências (ex.: Obstetrícia na Margem Sul) e dependência de “tarefeiros”
O que aconteceu: relatos de encerramentos/limitações de urgências de obstetrícia e ginecologia por indisponibilidades de última hora e falhas de cobertura de escalas, com impacto imediato no encaminhamento regional.
Erro típico:
- Tratar o tema como “episódio” e não como risco estrutural (dependência de prestadores externos, fragilidade de escala, ausência de redundância).
- Falha de desenho ao nivel da reversibilidade: quando o sistema já está no limite, qualquer ausência gera um ponto de não retorno operacional (encerra-se).
- Risco moral apenas valorizado se for mediático: quem suporta o risco residual (grávidas deslocadas, excesso de trabalho nas equipas receptoras, tempos de transporte, sobrecarga de urgências vizinhas).
O que fazer diferente:
- Tornar explícito o risco aceite: “dependência de X% de prestadores externos é aceitável até que ponto?”
- Redundâncias mínimas (planos de contingência regionais) em vez de eficiência máxima.
- Escalas com margem operacional (back-up real) e não apenas cobertura “no papel”.
Soluções para o futuro:
- Arquitetura regional de urgência com regras claras (quem recebe o quê; quando ativa; como comunica; como se compensa a unidade recetora).
- Planos de retenção/estabilização de equipas e contratos que reduzam a variabilidade (o sistema não pode depender de “última hora” como norma).
- Painel semanal de risco de escalas: sem burocracia, mas com “semáforo” e ações automáticas.
Ciberataques (ex.: ransomware em hospitais) e “irreversibilidade operacional”
O que aconteceu (exemplo documentado): houve ataques de ransomware a hospitais portugueses, incluindo ao Hospital Garcia de Orta (abril de 2022) e outros episódios no setor.
Erro típico:
- Ver a cibersegurança como algo do âmbito informático e não como um elemento essencial na segurança clínica e na continuidade assistencial.
- Subestimar a irreversibilidade: quando o sistema cai, a reversibilidade é baixa (papel improvisado, perda de rastreio, atrasos, risco de erro).
O que fazer diferente:
- Tratar a resiliência digital como uma decisão organizacional crítica, com planos de reversão (downtime procedures) desenhados e treinados.
- Definir o risco aceitável (ex.: “tempo máximo de indisponibilidade tolerável para X serviços”).
Soluções para o futuro:
- Exercícios regulares de simulação de falha (downtime drills) em serviços e áreas críticos.
- Redundância, segmentação e backups testados; e “mínimos operacionais” para manter a segurança do doente.
Ferramentas práticas de decisão sob incerteza

